O CNJ promove, em 24 de abril de 2026, em Brasília, o IAJus 2026, encontro nacional dedicado ao uso de inteligência artificial no judiciário que reunirá magistrados, servidores e equipes técnicas de tribunais e conselhos de todo o país. O evento, organizado pelo Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário (CNIAJ), marca um momento relevante para quem acompanha a transformação digital do sistema de justiça brasileiro: será o espaço institucional em que órgãos do Judiciário apresentarão, compararão e debaterão soluções de IA em diferentes estágios de maturidade.
O que é o IAJus 2026 e por que ele importa
O IAJus 2026 não é um evento corporativo de tecnologia. É uma iniciativa do próprio Conselho Nacional de Justiça para fomentar a integração entre tribunais e conselhos em relação à adoção de inteligência artificial, promovendo o intercâmbio de experiências e soluções entre os órgãos do Poder Judiciário.
A presença confirmada do Ministro Edson Fachin, Presidente do CNJ, sinaliza o peso institucional do encontro. A programação inclui painéis institucionais e temáticos sobre implementação de IA nos tribunais, automação de fluxos de trabalho, apoio à decisão judicial e aprimoramento dos serviços prestados ao cidadão.
O público-alvo é amplo: magistrados, servidores, equipes de TI, governança, inovação e gestão dos tribunais. Mas o que será discutido interessa diretamente a advogados, porque as decisões tomadas nesse encontro moldarão o ambiente tecnológico em que petições serão lidas, processos serão triados e decisões serão elaboradas.
Sinapses 2.0 e pesquisa sobre IA generativa
Dois lançamentos estão previstos para o IAJus 2026.
O primeiro é o Sinapses 2.0, versão atualizada da plataforma nacional do CNJ para armazenamento, treinamento supervisionado, controle de versionamento, distribuição e auditoria dos modelos de inteligência artificial utilizados no Judiciário. A plataforma Sinapses foi originalmente instituída pela Resolução CNJ nº 332/2020, que estabeleceu as primeiras diretrizes de ética, transparência e governança para o uso de IA no Poder Judiciário. A nova versão representa uma evolução dessa infraestrutura compartilhada entre tribunais.
O segundo lançamento é a 2ª edição da pesquisa sobre o uso de IA generativa no Poder Judiciário brasileiro. O levantamento anterior mapeou como os tribunais estavam adotando ferramentas de linguagem natural em suas rotinas. A nova edição deve atualizar esse panorama em um cenário em que o uso de IA generativa cresceu de forma acelerada, tanto dentro dos tribunais quanto entre os advogados que praticam perante eles.
O marco regulatório: Resolução CNJ nº 615/2025
O IAJus 2026 acontece em um contexto regulatório mais maduro do que o de edições anteriores. Em 2025, o CNJ publicou a Resolução nº 615, que estabelece princípios, diretrizes e requisitos para o desenvolvimento, utilização e governança de soluções baseadas em inteligência artificial no âmbito do Poder Judiciário.
O ponto central da resolução é a supervisão humana. O texto determina que as ferramentas de IA devem sempre contar com supervisão humana efetiva, periódica e adequada, garantindo que nenhuma decisão seja tomada exclusivamente por máquinas, sem possibilidade de revisão. A resolução é explícita: a IA não substituirá os magistrados, mas funcionará como ferramenta de apoio à decisão judicial, com caráter exclusivamente auxiliar.
A Resolução 615/2025 também prevê a criação do Comitê Nacional de Inteligência Artificial, composto por representantes do CNJ, da magistratura, da OAB, do Ministério Público, da Defensoria Pública e da sociedade civil. É esse comitê, o CNIAJ, que organiza o IAJus 2026.
O que muda na prática para advogados
A regulamentação progressiva do uso de IA no Judiciário tem implicações diretas para a advocacia. Se os tribunais estão sendo obrigados a documentar, auditar e supervisionar seus modelos de IA, os advogados que utilizam ferramentas similares para redigir peças e pesquisar jurisprudência operam em um ambiente de crescente escrutínio.
O risco mais concreto não é abstrato: é o de protocolar uma peça com citações que não existem. Isso já aconteceu em casos documentados no Brasil e no exterior. Ferramentas como o TeseFirme fazem essa verificação automaticamente, cruzando cada citação com 3 modelos de IA independentes para identificar inconsistências antes que cheguem ao juiz.
Se você usa IA para pesquisar jurisprudência, vale entender como alucinações de IA afetam advogados e quais são os riscos processuais envolvidos. E se já houve casos de advogados multados por usar IA, o movimento regulatório do CNJ indica que a tolerância a erros desse tipo tende a diminuir, não a aumentar.
Painéis e temas do evento
A programação do IAJus 2026 está estruturada em dois formatos principais: painéis institucionais, em que tribunais apresentam suas iniciativas de IA, e painéis temáticos, organizados por área de aplicação.
Entre os temas previstos estão:
- Automação de fluxos de trabalho nos tribunais
- Apoio à decisão judicial por sistemas de IA
- Aprimoramento dos serviços prestados ao cidadão
- Governança e auditoria de modelos de IA no Judiciário
O evento é voltado para o público interno do Poder Judiciário, mas seus resultados, especialmente os dados da pesquisa sobre IA generativa e os detalhes do Sinapses 2.0, serão relevantes para qualquer profissional do direito que acompanhe a evolução tecnológica do sistema de justiça.
O Judiciário brasileiro e a corrida pela IA
O IAJus 2026 reflete uma tendência que já é mensurável. Segundo dados de mercado, mais de 55% dos advogados brasileiros já utilizam IA generativa diariamente em sua prática. Do lado dos tribunais, o movimento é igualmente acelerado: o Sinapses acumula modelos de IA desenvolvidos por diferentes tribunais, e a Resolução 615/2025 cria o arcabouço para que essa expansão ocorra com governança.
O desafio é que a velocidade de adoção, tanto nos tribunais quanto nos escritórios, frequentemente supera a capacidade de verificação. Modelos de linguagem cometem erros. Citam súmulas que não existem. Atribuem ementas a acórdãos errados. Inventam números de processo. Isso não é uma falha exclusiva de ferramentas jurídicas: é uma característica conhecida dos modelos de linguagem em geral, documentada em mais de 700 casos ao redor do mundo, segundo levantamentos especializados.
A resposta do CNJ, expressa tanto na Resolução 615/2025 quanto na organização do IAJus 2026, é a supervisão humana como requisito inegociável. Para advogados, a tradução prática disso é simples: usar IA para produzir é aceitável, mas protocolar sem verificar é um risco que o próprio Judiciário está deixando de tolerar.
O que esperar após o IAJus 2026
Eventos como esse costumam gerar desdobramentos concretos: novas resoluções, atualizações de plataformas, recomendações para tribunais e, eventualmente, orientações que chegam até a advocacia por meio da OAB e de outros órgãos representativos.
O lançamento do Sinapses 2.0 é o mais tangível no curto prazo. A plataforma é a infraestrutura compartilhada sobre a qual os tribunais desenvolvem e auditam seus modelos. Uma versão mais robusta significa mais capacidade de rastreamento e, potencialmente, mais transparência sobre como a IA está sendo usada nas decisões que afetam os processos dos seus clientes.
A pesquisa sobre IA generativa, por sua vez, deve oferecer um retrato atualizado de onde os tribunais estão nessa jornada. Os dados anteriores já indicavam adoção crescente. A nova edição dirá se essa adoção está sendo feita com governança adequada ou se ainda há lacunas significativas.
Para advogados que já adotaram IA em seu fluxo de trabalho, o cenário pós-IAJus 2026 provavelmente será de maior exigência, não menor. Tribunais mais estruturados em IA tendem a identificar inconsistências com mais facilidade. Peças com citações fabricadas têm menos chance de passar despercebidas.
Se você ainda não revisou seu processo de verificação de citações, o momento é agora. Entender como pesquisar jurisprudência nos tribunais com rigor continua sendo uma habilidade essencial, mesmo (ou especialmente) quando se usa IA como ponto de partida.
O IAJus 2026 acontece em 24 de abril de 2026, no CNJ, em Brasília. Os resultados do evento devem ser publicados pelo portal do CNJ nos dias seguintes.